A melhor amiga de Spielberg
“Nada substitui a criatividade e a arte”, diz o cineasta ao falar sobre Inteligência Artificial no festival SXSW
A grande atração desta edição do South by Southwest (SXSW), festival realizado em Austin, no Texas, foi o cineasta Steven Spielberg (foto).
Primeiro, um pouco de contexto sobre o evento: o SXSW nasceu em 1987 como um festival de música. Ao longo do tempo incorporou um importante festival de cinema e passou a contar também com palestrantes que discutem tendências.
Hoje, é consagrado como um dos maiores encontros globais de tecnologia, inovação, música, cinema e comportamento.
Antes que Spielberg fosse chamado ao palco, assistimos a um clipe com os melhores momentos dos seus filmes. Naquele instante, compreendi a dimensão da presença dele na minha vida, ao longo de décadas.
Tubarão
Foi no Guarujá, no final dos anos 1970, que cometi a transgressão de assistir a um filme censurado para a minha idade: Tubarão.
O porteiro fazia vista grossa e o cinema engordava o faturamento com a garotada mais nova. Naquelas férias, ninguém mais entrou no mar sem um certo medinho.
Enquanto Spielberg me fez desabar em lágrimas ao me despedir do E.T., provocou pavor no meu irmão caçula.
Toda noite tínhamos que conferir e garantir que o monstrengo não estava dentro do armário do quarto dele.
Imagino que memórias similares tenham tocado as 2.500 pessoas presentes naquele auditório.
Máquinas têm intuição?
Num festival que reúne dezenas de milhares de pessoas ávidas por inovação, o cineasta discorreu sobre o que, enquanto tivermos sorte, permanecerá exclusivamente humano:
“Em vez de ouvir a voz alta do meu cérebro, escuto os sussurros da minha intuição. Ela é a minha melhor amiga”.
Foi baseado na sua intimidade com a intuição que ele partiu para a direção de Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan sem um único storyboard.
Esta liberdade de chegar ao set de filmagem sabendo apenas quais páginas do roteiro deveria cobrir, ainda que não soubesse como, não acontece nos filmes com muitos efeitos especiais.
Pelo alto orçamento, tudo deve ser planejado em detalhes, o que faz desses projetos os menos interessantes para o cineasta.
Um ensaio sobre a paternidade
Ao idealizar e filmar E.T., O Extraterrestre, Spielberg ainda não era pai. Sua convivência com as crianças no set, principalmente Drew Barrymore, gerou uma enorme conexão entre eles e o preparou para a uma paternidade presente e participativa.
Ele afirma que suas melhores histórias foram as que contou ao colocar os filhos para dormir — e hoje são os netos que desfrutam desse privilégio.
Arte artificial?
Spielberg declarou que acredita na importância da Inteligência Artificial para várias áreas, mas que ela nunca foi e jamais será utilizada nas suas produções. “Nada substitui a criatividade e a arte”.
Spielberg mostrou o trailer da sua nova produção, Disclosure Day, com estreia em junho, e deixou um spoiler: sua próxima criação será um faroeste.
“Haverá cavalos, haverá armas, mas não haverá tropas”, ironizou, em referência ao momento bélico atual.
O ícone hollywoodiano deixou o palco sendo aplaudido em pé por uma audiência absolutamente encantada.
A indescritível criatividade do cineasta é altamente inspiradora, mas o que tocou a plateia foi a sua lição sobre humanidade.
Patricia Chaccur é empresária, escritora e palestrante. Administradora de empresas formada e pós-graduada pela FGV, focou a carreira na construção de marcas fortes. Liderou a área de Comunicação e Branding das multinacionais Nike e Avon, em que foi diretora para América Latina. Em sua palestra do TEDxSãoPaulo, “Feliz por Opção”, ela conta como faz para levar a vida com leveza. Patricia acompanha os principais festivais de inovação do mundo e faz curadoria de tendências para empresas e eventos.
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Comentários (1)
Carlos Renato Cardoso da Costa
18.03.2026 05:59Quando a máquina conseguir criar e exprimir sentimento pode desistir do ser humano