A tarifa como capricho: Trump e seu brinquedo preferido
Não há, na tarifa anunciada, qualquer vestígio de planejamento estratégico, apenas tentativa de dobrar o mundo à força da chantagem comercial
O anúncio, por Donald Trump, de uma tarifa de 10% sobre produtos da Dinamarca e de outros países europeus em resposta à rejeição de seu plano de comprar a Groenlândia (território autônomo sob soberania do reino dinamarquês) não pode ser tratado como mais um capítulo excêntrico da já conhecida imprevisibilidade trumpista.
Há algo mais profundo, e mais perigoso, no gesto.
Trata-se da transformação da política econômica em uma extensão do ego presidencial, da guerra comercial em ferramenta de retaliação moralista, e da tarifa aduaneira em instrumento de humilhação simbólica contra aqueles que se recusam a fazer parte do delírio geopolítico em curso.
A política de Trump, que um dia alegou querer restaurar a “grandeza” americana, converteu-se num projeto de institucionalização do ressentimento. E é justamente no campo da política comercial que esse ressentimento encontra sua expressão mais crua: a substituição da racionalidade econômica pela teatralidade da punição; do cálculo técnico pelo gesto passional.
Não há, na tarifa anunciada, qualquer vestígio de planejamento estratégico. O que há é uma forma invertida de política externa: não mais uma busca pela integração diplomática por meio de incentivos, apenas uma tentativa de dobrar o mundo à força da chantagem comercial.
Se quisermos entender a gravidade dessa guinada, devemos voltar a Hayek, um dos mais celebrados nomes da assim chamada “escola austríaca de economia”, prêmio Nobel na área.
Em Os Fundamentos da Liberdade, ele afirma: “a liberdade só é possível em uma ordem onde a coerção do poder estatal é limitada por regras gerais e previsíveis.”
Trump faz justamente o oposto: desregula a previsibilidade, rompe pactos tácitos de boa-fé entre aliados históricos e governa como um demiurgo da tarifa, que modela o mundo à imagem dos seus afetos e rejeições.
A Dinamarca não é mais um parceiro, mas um obstáculo pessoal. E a Groenlândia, não mais um território autônomo, mas uma peça disponível num tabuleiro imperial, cujo preço Trump supõe poder estipular sozinho.
O comércio entre nações livres, como ensinaram os grandes autores do liberalismo econômico – de Bastiat a Mises, de Smith a Hayek –, deve ser um instrumento de paz e cooperação. Ele repousa na ideia de que trocas voluntárias geram prosperidade mútua, ampliam a liberdade individual e diminuem a necessidade de conflitos armados.
A tarifa punitiva de Trump não serve a nenhum desses propósitos. Ao contrário: ela inaugura uma lógica belicosa, onde cada parceiro comercial pode tornar-se, a qualquer momento, alvo de uma vingança econômica… bastando, para tanto, contrariar o humor presidencial do dia.
Há, portanto, uma ruptura epistemológica em curso: aquilo que no liberalismo era instrumento de liberdade, o comércio, torna-se, sob o autoritarismo narcisista, instrumento de dominação.
O que vemos aqui é o deslocamento da função da tarifa de seu campo técnico para o campo simbólico. A tarifa deixa de ser um ajuste de balança comercial para tornar-se uma declaração de guerra emocional: o mundo não se curva à minha vontade, logo será punido.
Tal lógica é incompatível com qualquer regime que se pretenda liberal ou civilizado.
A política comercial de Trump é o reflexo exato de uma patologia: uma vontade de poder sem freios, sem responsabilidade, sem apreço pelas mediações institucionais que garantem a estabilidade do sistema internacional.
Não se trata mais, como em tempos normais, de discutir os méritos ou deméritos das tarifas em si. A questão é anterior e mais grave: trata-se de compreender que a racionalidade econômica foi sequestrada por um teatro de absurdos, em que a diplomacia cede lugar à chantagem, e o cálculo estratégico ao impulso pueril.
Punir a Dinamarca por não querer vender a Groenlândia é mais do que um delírio: é a institucionalização do infantilismo político como método de governo.
E aqui, inevitavelmente, ressurge a advertência clássica de Platão: “A pior forma de tirania é aquela que nasce da democracia degenerada.”
A comédia da tarifa caprichosa é apenas o sintoma visível de um drama mais profundo: a substituição da liberdade pelo arbítrio.
Se a política internacional deve servir para pacificar o mundo, Trump a transforma numa arena de humilhações… e a tarifa, numa bofetada travestida de decreto.
A guerra tarifária passou a ser um instrumento de performance autoritária. Um modo de dizer ao mundo: “só haverá comércio se houver submissão.”
Contra isso, o liberalismo autêntico ergue sua voz: não há liberdade onde há chantagem; não há comércio onde há castigo; não há ordem onde reina o desejo de um só homem.
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Comentários (1)
Eduardo
17.01.2026 23:43Muito bom.