Chega de fita, placa e político sorrindo

07.07.2026

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O Antagonista

Chega de fita, placa e político sorrindo

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Ricardo Kertzman
4 minutos de leitura 03.07.2026 13:46 comentários
Análise

Chega de fita, placa e político sorrindo

Que a Justiça proíba a inauguração de obra pública em qualquer época do ano. Menos palco para populista embusteiro

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Ricardo Kertzman
4 minutos de leitura 03.07.2026 13:46 comentários 2
Chega de fita, placa e político sorrindo
Foto: Ricardo Stuckert / PR via Flickr

Na quinta-feira, 2, durante a inauguração do Túnel Major Sales, em Luís Gomes, no Rio Grande do Norte, obra integrante da transposição do Rio São Francisco – sim, aquela que durou décadas, atravessou presidentes e sugou bilhões de reais superfaturados -, o presidente Lula reclamou da legislação eleitoral, que impede candidatos de participarem de inaugurações nos meses que antecedem as eleições.

Contrariado, um dos pais do populismo bocó brasuca classificou a regra como uma “Papagaiada desgraçada“. Normal. O cara inaugura container chamando de ponte. Mas concordo com Lula – em parte. A regra é estranha mesmo. Mas não porque proíba políticos de inaugurarem obras apenas no período eleitoral. O erro, a meu ver, está em permitir que políticos inaugurem obras em qualquer época do ano.

Uma obra pública não deveria jamais ter qualquer cerimônia de inauguração. Nem antes, nem durante, nem depois das eleições. Nunca! A tradicional – e patética – cena do governante cercado de assessores, deputados, prefeitos, vereadores, cabos eleitorais, fotógrafos e bajuladores, para cortar uma fita colorida diante de uma placa coberta por um pano azul ou verde é o retrato do nosso atraso.

A República da Fita Cortada

É um ritual típico do populismo latino-americano. Uma espécie de missa cívica destinada a transmitir a sensação de que aquele senhor sorridente, de capacete na cabeça, colete sobre o corpo e tesoura na mão está nos fazendo um favor pessoal. Não está. O dinheiro não saiu do bolso dele. Saiu do seu. Do meu. Do comerciante e do trabalhador que veem quase metade da renda desaparecer sob a forma de impostos acachapantes.

O governante não está distribuindo generosidade alguma. Está apenas cumprindo a obrigação para a qual foi eleito. Toda grande obra – que faria por merecer, vá lá, uma cerimônia de inauguração – tem muitos “pais”. Uma rodovia importante, um hospital regional, uma barragem, uma linha de metrô ou uma ferrovia raramente são concebidos, licenciados, financiados e concluídos por um único governo e por um único governante.

Uma gestão faz os estudos iniciais. Outra contrata projetos. Uma terceira obtém licenças. A quarta aloca recursos. A quinta inicia as obras. Daí, não raro, a sexta paralisa tudo e a sétima retoma, superfaturando. Somente anos, ou décadas depois, alguém aparece para cortar a fita e posar para a fotografia oficial. Como num passe de mágica, todos os demais desaparecem da história e o sujeito transforma-se no “pai” da obra.

Apropriação eleitoral indébita

O Brasil é um país que pensa até outubro, a cada dois anos. Países sérios planejam infraestrutura para vinte, trinta, cinquenta anos à frente. Governos mudam, mas os projetos permanecem. Banânia faz o contrário. Boa parte dos governantes pensa até a próxima eleição. Não interessa a obra mais necessária, mas, sim, a mais visível. A que pode render imagens aéreas, discursos emocionados e programas eleitorais.

Por isso temos viadutos para inaugurar e redes de drenagem insuficientes, deixando mais de 50% da população sem saneamento básico. Corredores viários sem planejamento urbano são construídos a toque de caixa – para o caixa – dois. Hospitais ficam prontos sem equipe. Planejamento de longo prazo não dá voto. Esgoto não rende fotografia. Manutenção preventiva não permite corte de fita inaugural.

Já passou da hora de aposentarmos de vez essa liturgia provinciana eleitoreira. A melhor inauguração de uma obra pública acontece no dia em que ela começa a funcionar e melhora efetivamente a vida das pessoas. Sem palanque, sem fogos, sem placa, sem político sorrindo. Por isso, repito: que a Justiça proíba a inauguração de obra pública em qualquer época do ano. Menos palco para populista embusteiro.

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Ricardo Kertzman

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Comentários (2)

Marcilio Monteiro De Souza

05.07.2026 16:57

Os maus caráter não perde uma oportunidade de mostrar o seu mau caratismo. O político brasileiro é mestre em maus caratismo.


Rosa

03.07.2026 14:36

"Sonha Marcelino"....


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