Enquanto Flávio Bolsonaro se omite, Zema enfrenta o STF
Talvez seja o ponto mais incômodo para o clã das rachadinhas - sempre ligeiro e corajoso nas redes, mas covarde no enfrentamento real
Rei dos panetones de chocolate vendidos em dinheiro vivo, Flávio Bolsonaro tornou-se senador carregando um discurso de confronto contra o tal sistema, mas, na prática, fez o oposto quando este sistema o apertou. Aliás, nada mais Bolsonaro que isso. O pai, durante depoimento na ação da chamada Trama Golpista, amarelou feio diante de Alexandre de Moraes e o convidou – hipoteticamente, é claro – para ser seu vice em outubro. Já Eduardo Bolsonaro, o Dudu Bananinha, se mandou para os EUA, para curtir a vida adoidado entre festas e rodeios.
Quando as investigações das rachadinhas começaram a avançar sobre o gabinete do bolsokid 01 na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), o que se viu não foi enfrentamento. Ao contrário. Viu-se “contenção institucional”. Leia-se, blindagem togada.
Em 2019, o então presidente do STF, Dias Toffoli, suspendeu investigações em todo o país baseadas em dados do Coaf sem autorização judicial, decisão que beneficiou diretamente o já senador. Como retribuição, o ex-advogado do PT recebeu um afetuoso abraço de Jair Bolsonaro, então presidente da República, na porta de casa, numa das cenas mais hipócritas e infames da política nacional.
Dupla de ataque, ou melhor, de defesa
Na sequência, Gilmar Mendes estendeu o efeito dessa decisão ao caso específico, determinando a suspensão de apurações envolvendo Flávio Bolsonaro e citando expressamente a decisão do “amigo do amigo de meu pai”. Mas não parou por aí.
O próprio STF, em decisões posteriores, anulou provas relevantes obtidas via Coaf e manteve o foro do senador, interferindo diretamente na estrutura da investigação. O resultado é conhecido por todos: um processo que começou com movimentações financeiras consideradas atípicas, inclusive com o carequinha Fabrício Queiroz admitindo rachadinhas e pagamentos de despesas de Flávio Bolsonaro, perdeu densidade jurídica ao longo do caminho e terminou, para não variar, em pizza. Atenção! Nada disso é interpretação ou opinião. É pura cronologia e fato.
E onde estava mesmo Flávio Bolsonaro quando o Senado discutia a CPI da Lava Toga, sob a liderança do mesmo Alessandro Vieira, hoje ameaçado por Gilmar e Toffoli, que pretendia investigar ministros de tribunais superiores? Votando contra, ora. E angariando votos contrários também. Como sabido, a proposta foi enterrada com a ajuda direta de quem, hoje, posa de vítima de decisões judiciais.
Chico Bento na área
Do outro lado, já saltando seis, sete, oito anos à frente, Romeu Zema resolveu fazer o oposto – e pagar o preço por isso. Nos últimos dias, o ex-governador mineiro transformou o STF em alvo central da sua campanha política. E não de forma lateral, em discurso protocolar. Ataque direto mesmo, no queixo, reiterado, com nome e sobrenome. Zema chamou o Tribunal de “O pior Supremo da história” e passou a produzir uma sequência de vídeos criticando ministros e decisões.
A reação veio rápida e robusta. Gilmar Mendes pediu sua inclusão no famigerado inquérito das fake news – essa estrovenga em que tudo cabe e nunca termina -, alegando ataques à honra da Corte, após um vídeo satírico. Zema respondeu elevando o tom, falando em “Acabar com a farra dos intocáveis” e acusando o tribunal de agir sem transparência, de forma autoritária e sem direito de defesa.
O novo troco togado foi simplesmente patético. O máximo que Gilmar conseguiu produzir foram críticas sobre o sotaque e a pobreza da oratória do conhecido como Chico Bento, o personagem caipira dos quadrinhos de Mauricio de Souza, justamente por “falar mal” – atenção: não confundir com o Cebolinha, que fala “elado”.
Zema 7 x 1 Flávio
Não é comum um ex-governador e pré-candidato à Presidência da República entrar em confronto tão direto e franco assim com o STF, principalmente sabendo que a Corte, hoje, investiga, julga e executa. É uma decisão política corajosa, que pode terminar com um custo elevado: uma severa condenação criminal.
A comparação entre os dois pré-candidatos de oposição ao lulopetismo expõe mais do que estilos diferentes. Expõe o verdadeiro caráter político de cada um. Flávio Bolsonaro enfrentou o sistema? Não. Recorreu a ele e foi beneficiado. Já Romeu Zema não perdeu a oportunidade de se posicionar e escolheu o confronto. Pode estar errado em parte das críticas, pode exagerar, pode até se queimar politicamente. Mas está fazendo o que Flávio nunca fez: comprar briga! No Brasil do centrão e dos rabos presos, isso é exceção.
E talvez seja o ponto mais incômodo para o clã Bolsonaro – sempre ligeiro e corajoso nas redes, mas covarde no enfrentamento real. Porque não é sobre quem está certo ou errado, ou quem grita mais alto, a percepção e o mérito do caso. É sobre quem joga sem medo de perder: um se protegeu dentro do sistema. O outro resolveu bater de frente com ele.
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Comentários (1)
Ita
24.04.2026 10:33Zema e Caiado, Caiado e Zema seria um sonho. Seria?