Fé, minha mãe, uma vela e eu
Não entrei naquela igreja por fé. Entrei por memória. Por alguns minutos, ocupei um lugar que um dia foi da minha mãe
Vivemos em nossos filhos – e, sim, para eles. Carregar a ancestralidade significa remontar os primórdios e retornar à fagulha existencial. Pode soar, e talvez seja, um começo filosófico demais para esse texto, mas saiu assim.
Não sou religioso. Não acredito em Deus e não consigo ter fé numa vida melhor – aquele lugar que dizem existir depois daqui: “Fulano partiu dessa para uma melhor”. Por isso, minha mãe não existe mais para além das minhas memórias.
Casualmente, dias atrás, passei a pé em frente à igreja do colégio em que estudei e onde minha mãe costumava acender velas.
Eram muitas. Uma para ela, outra para a irmã já falecida, outras para os filhos (quatro), uma para o Pai Damião, o preto-velho de que gostava, e assim por diante. Minha mãe distribuía velas como quem distribuía cuidados.
Talvez minha ausência de fé advenha justamente da Babel religiosa que ela era: judia, espírita, cristã. “O importante é chegar a Deus. Não importa como“. Curioso. Vivi e convivo com religiões diferentes e não me apeguei a nenhuma.
Fé pra que te quero
Voltando à igreja, entrei e fui acender uma vela pela minha mãe e para a minha mãe. “Mas, Ricardo, se você não acredita em nada, por que fez isso?”. Bem, em princípio, como disse, por ela e para ela. Explico.
Eu jamais sairia de casa ou do escritório para acender uma vela em uma igreja. Mas, de tanto vê-la fazer isso, sempre que estou viajando e visito uma catedral famosa, por exemplo, acabo repetindo o gesto. Não por crença. Mas por hábito. Por memória. Por afeto.
Portanto, nada mais natural. Passei em frente, a pé, e entrei na igreja do Colégio Santo Antônio, em Belo Horizonte.
A primeira vela foi para ela, claro. E não porque eu imagine que esteja em algum lugar me observando. Não imagino. Acendi porque, durante décadas, aquele foi um gesto dela. Um ritual semanal: “Me leva pra acender uma vela no Santo Antônio?”
Já a segunda foi por ela. Há um assunto familiar em curso. Delicado. Daqueles que mobilizam preocupações e pensamentos. Minha mãe, sem a menor dúvida, teria acendido uma vela. Aliás, uma de sete dias, no banheiro, e dezenas de outras, na igreja.
Representante na Terra
Então fui lá e acendi eu. Inclusive, em pensamento, brinquei com a situação: “Pronto, mãe. Já acendi a vela pra ele“. E foi nesse momento que entendi.
Não entrei naquela igreja por fé. Entrei por memória. Por alguns minutos, ocupei um lugar que um dia foi da minha mãe. E não por acreditar no que ela acreditava. Nem para falar com ela ou muito menos com Deus.
Entrei porque certas pessoas continuam agindo através de nós, muito depois de terem ido embora.
Minha mãe morreu em 2020. Continua morta. Continua inexistente fora das minhas lembranças. Ainda assim, naquela tarde, diante de uma vela acesa, fez exatamente o que teria feito se estivesse viva. A diferença é que usou minhas mãos.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (2)
Pedro Boer
04.06.2026 16:21Pra Deus não faz diferença se você é ateu.
Maria de Fatima Carvalho Gabriel
04.06.2026 15:40Ainda assim, apesar de, uma bela homenagem. Vc tem fé, ainda que a negue.