Foi-se Oscar. Ficou Oscar
Acho que a única forma de lidar com a morte é tentar ignorá-la. Ao menos enquanto se pode
Muita gente não gosta de falar sobre a morte. Eu não me importo. Acredito, inclusive, que o fim da vida resolve tudo. A morte tem função objetiva: pôr fim. A maldita não negocia, não relativiza, não pede licença nem perdão. Simplesmente encerra. Michel de Montaigne afirmou: “Filosofar é aprender a morrer.”
Mas o que me dói mesmo é falar sobre envelhecimento e, pior ainda, sobre velhice. Se a morte é um instante, a velhice, não. Ela é processo, é lenta, o corpo se despedindo antes de a consciência aceitar. É quando a biologia assume as rédeas. Arthur Schopenhauer dizia que “Envelhecer é ver o corpo submetido ao tempo.”
Essa minha dor perante o passar dos anos, talvez seja fruto da experiência com meus pais, que, infelizmente, tiveram uma velhice difícil por conta de fragilidades físicas e motoras e de doenças. Ou, quem sabe, seja fruto da minha própria racionalidade? Ou, mais incômodo ainda, da percepção de que não há nada de excepcional nisso.
Mão Santa
A morte do maior jogador de basquete do Brasil, Oscar Schmidt, o Mão Santa – o Ronaldinho Gaúcho das pelotas grandes – como sempre ocorre quando um ídolo dessa grandeza morre, atrai a atenção não pelo falecimento em si, mas pelas memórias e pelo legado. Não se fala do corpo que parou. Fala-se do que permaneceu.
Isso diz muito sobre os vivos. A gente não sabe lidar com o fim. Então o transforma em história. Em homenagem. Blaise Pascal escreveu que “Os homens, não tendo podido curar a morte, decidiram não pensar nela”. É uma tentativa de domesticar o inevitável. Provavelmente é o que estou fazendo agora.
Para mim, a verdadeira e única imortalidade reside justamente no que fica após a decomposição carnal. Descendentes, feitos, histórias, realizações. Freddie Mercury é imortal. Pelé é imortal. Sigmund Freud é imortal. Oscar é imortal. Eles não estão em algum lugar. Mas continuam dentro dos vivos.
Eternidade
Daqui a 200 anos, nos livros de história, ou seja lá o que irá retratar o passado, se ainda existir basquete, o fã do esporte irá se deparar com um sujeito enorme, desengonçado, feio e incrivelmente engraçado. E será o bastante, porque a memória simplifica, reduz uma vida inteira a alguns traços dominantes.
O brasileiro saberá que Oscar foi um atleta com A maiúsculo, daqueles que de fato honraram todos os escudos que defendeu e que, de quebra, como um outro imortal, Ayrton Senna, encontrava tempo para louvar o próprio povo e seu país, a despeito de jamais ter se vendido ao patriotismo de ocasião.
No fim, talvez seja isso que reste a todos nós. Não a vida que tivemos, mas a leitura que farão dela quando daqui formos. Um punhado de características, de qualidades e defeitos, algumas histórias boas, outras, ruins, uma ou outra frase de efeito. Acho que a única forma de lidar com a morte é tentar ignorá-la. Ao menos enquanto se pode.
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Comentários (3)
Rosa
18.04.2026 10:45Enquanto lembrar...( olha o Alzheimer aí gente!)
Rosa
18.04.2026 10:45Gostei,ô dedo grosso!
Rosa
18.04.2026 10:44Como eu ando lendo você aqui, porque gistei de como você escreve e pensa, estás na minha fila para os jornalistas que sempre lembrarei......