Fraudes de Vorcaro constrangem ex-sócios e negócios lícitos
Para estes fica a lição que todos os pais e avós nos dão ainda em nossas tenras idades: “Jamais ande em má companhia"
Os problemas financeiros e criminais envolvendo Daniel Vorcaro, atualmente preso pela Polícia Federal em Brasília e proprietário do Banco Master – em processo de liquidação pelo Banco Central -, passaram a atingir e constranger, de forma indevida, antigos parceiros comerciais do ex-banqueiro.
Se, por um lado, Vorcaro passou a manter, sobretudo nos últimos anos, contatos pouco republicanos em Brasília, principalmente na órbita da Praça dos Três Poderes, por outro também atuava em negócios legítimos em diferentes setores da economia, como mineração, saúde e construção civil, entre outros. Em razão disso, alguns de seus antigos sócios – empresários ligados a empreendimentos tradicionais e lícitos – vêm sendo arrastados para o centro da controvérsia e agora se veem obrigados a vir a público para esclarecer a natureza e os limites dessas relações passadas.
Em Belo Horizonte, por exemplo, ele era visto apenas como um empresário arrojado e bem-sucedido. Foi essa reputação que levou os acionistas da SAF (Sociedade Anônima do Futebol) do Clube Atlético Mineiro a aceitarem sua participação na gestão do Galo. Vorcaro detinha cerca de 25% das ações e aportou R$ 300 milhões ao lado de outros investidores, mas, tão logo eclodiu o escândalo envolvendo seus negócios, a SAF atleticana notificou o acionista, pedindo esclarecimentos. Ato contínuo, amparado pelas leis que regem as sociedades anônimas, afastou Daniel Vorcaro do Conselho de Administração.
Entre outros negócios vultosos que contaram com a participação de Vorcaro em Minas Gerais estão a fábrica de insulina Biomm, uma das maiores do continente e que conta com sócios de peso, como Walfrido dos Mares Guia, da Kroton Educacional, Lucas Kallas, da Cedro Mineração e até mesmo a BNDESPar, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, e a rede hospitalar Promed, vendida posteriormente à Hapvida.
Religião e imprensa
Daniel Vorcaro também se associou à Igreja Batista da Lagoinha, fundada em 1957 e que reúne cerca de 600 templos espalhados por todo o mundo. Somente em BH, são dezenas de locais, sendo um dos maiores erguido recentemente em um bairro nobre da capital mineira. As dezenas de milhares de fiéis foram pegas de surpresa pelo envolvimento de um de seus mais notórios membros – e pastor -, Fabiano Zettel, cunhado de Daniel e também preso atualmente, nas graves denúncias sobre o banco e a família Vorcaro.
Matérias recentemente publicadas na imprensa também passaram a vincular Daniel Vorcaro a supostos movimentos indiretos no setor de mídia. Reportagens divulgadas por diferentes sites afirmaram que dois veículos de comunicação, ao menos, teriam sido contratados diretamente pelo ex-banqueiro para divulgar conteúdos favoráveis a ele e críticos ao Banco Central.
Um desses veículos, inclusive, publicou reportagem afirmando que a Itaminas Comércio de Minérios S.A., mineradora com 67 anos de atuação no setor e uma das mais tradicionais do país, teria participado de uma suposta “fraude” na operação de aquisição da participação acionária anteriormente detida por Vorcaro na companhia. A matéria também sustentava que os novos acionistas teriam sido notificados pelo Banco Central, informação que, segundo esclarecimento público da própria empresa, não corresponde à realidade.
A reportagem ainda mencionava que a transação teria ocorrido por “valor vil”, isto é, muito abaixo dos preços praticados pelo mercado. Em nota oficial, a Itaminas rebateu as afirmações e esclareceu que a operação de aquisição foi realizada com base em múltiplos de EBITDA superiores aos observados em empresas comparáveis do setor de mineração, afastando a hipótese de subavaliação do ativo. A companhia também informou que o processo foi formalmente comunicado às autoridades competentes, incluindo o Banco Central e o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e que jamais foi notificada por qualquer órgão regulador em relação à transação.
STF pode relaxar prisão preventiva
A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) deve julgar nesta sexta-feira, 13, se mantém ou não a prisão preventiva de Vorcaro, determinada pelo ministro André Mendonça no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master. A ordem foi expedida após pedido da Polícia Federal, que sustenta que o ex-banqueiro teria coordenado um grupo responsável por monitorar e intimidar jornalistas e autoridades durante as apurações do caso.
Há, ao que tudo indica, uma possibilidade concreta de relaxamento da prisão de Daniel Vorcaro. O ministro Dias Toffoli declarou-se suspeito e não participará da análise, o que reduz o colegiado a apenas quatro ministros: Gilmar Mendes, Luiz Fux, Nunes Marques e o próprio relator, André Mendonça. Nesse cenário, um eventual empate na votação tende a favorecer o investigado, em razão da legislação que determina a aplicação da solução mais benéfica ao réu em julgamentos criminais.
Na prática, o Tribunal terá três caminhos possíveis: confirmar integralmente a decisão de Mendonça e manter a prisão preventiva; substituí-la por medidas cautelares menos gravosas; ou, diante de um empate, permitir a imediata soltura de Vorcaro. Por isso, mais do que discutir o mérito das acusações, o julgamento de amanhã se tornou também um teste institucional sobre o próprio Supremo.
Diversas autoridades e agentes públicos acompanham com evidente apreensão o desenrolar dos fatos. Para alguns, a preocupação é mais que merecida, diante de relações que teriam sido mantidas com o ex-banqueiro em circunstâncias pouco ou nada republicanas. Para outros, contudo, permanece o risco de exposição indevida e de constrangimento semelhante ao que já atingiu empresas e empresários reconhecidamente idôneos, arrastados para o centro da controvérsia sem que haja, até o momento, quaisquer indícios de irregularidades em suas condutas. Para estes últimos, fica a lição que todos os pais e avós nos dão ainda em nossas tenras idades: “Jamais ande em má companhia.”
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Comentários (1)
Jose Diogo de Almeida
13.03.2026 09:51Tem muita gente que apesar das dicas dos avós, adoram andar em má companhia, até porque tiram muito proveitos disso, vide empresário que estão por aí ... querendo tiram vantagem dos negocios excusos, a tal lei do Gerson