O próximo truque de Lula
Para além do debate econômico, o problema é que André Lara Resende surge como uma esperança de evitar que o petista sofra as consequências da própria irresponsabilidade
André Lara Resende assusta os agentes financeiros do Brasil no clima de Halloween que acabou de passar. O economista entrou para a história do país por participar do Plano Real, uma das únicas políticas que deram certo no Brasil em décadas, mas também do Plano Cruzado, umas das várias que deram errado, e se notabilizou nos últimos anos por pensar fora da caixa.
Lara Resende publicou um texto fora da caixa em 25 de setembro intitulado Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos, no qual propõe, entre outras coisas, a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional que seria responsável por definir metas de crescimento, inflação e juros para os próximos anos.
A ideia é baixar os juros para reduzir a dívida pública e controlar a consequente desvalorização do câmbio usando as reservas de 350 bilhões de reais do Banco Central.
Após o jornal O Globo dizer que o economista tinha um encontro marcado com Lula (foto) para esta semana, apoiadores do presidente, como a deputada federal e ex-ministra Gleisi Hoffmann, que não conseguiu se eleger senadora pelo Paraná, se animaram com a possibilidade de reduzir a taxa básica de juros sem que o governo precise fazer um ajuste fiscal, que prejudicaria a popularidade de Lula.
“Artigo de André Lara Resende, publicado em 25 de setembro, é fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira”, disse Gleisi em seu perfil no X.
Desconversaram
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que haja reunião agendada com Lara Resende.
“Não há nenhuma reunião agendada entre o presidente e Lara Resende. Há uma série de economistas que se colocaram à disposição para colaborar, em contato com [o presidente do BNDES] Aloízio Mercadante, mas não há encontro previsto”, disse Durigan à Folha de S.Paulo.
O presidente do PT, Edinho Silva, também desconversou.
“As especulações na área econômica não colaboram com o país e só fazem o jogo dos especuladores, dos oportunistas do mercado, daqueles que apostam contra o governo Lula, contra o futuro do país. O único que fala em nome do governo Lula na política econômica é o ministro Dario Durigan”, disse o líder partidário em nota.
Turquia
As propostas de Lara Resende são altamente questionáveis, como diversos economistas têm exposto desde o fim de semana, aludindo ao que ocorreu na Turquia recentemente, quando uma redução forçada na taxa de juros fez a inflação disparar e a economia local se descontrolar.
“Eu toparia… mas com duas condições: ALR [André Lara Resende] assumiria o Ministério da Fazenda para tocar a politica. Teria que manter no Brasil em reais todos os seus ativos. Skin in the game…”, provocou o ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman.
“Eu não estou preocupado com o palco que tem sido dado pra esse maluco dançar. Meu medo é ele ser o bode na sala de um MMT [Modern Monetary Theory] pseudo moderado como o Rafael Fonteles. Já vi essa pornochanchada antes e é produção de baixíssima qualidade”, criticou Jason Vieira, economista-chefe da Lev, referindo-se ao governador reeleito do Piauí, cotado para assumir o Ministério da Fazenda do quarto mandato de Lula.
Truque
Para além do debate econômico, o problema é a aparente busca do governo e de seus apoiadores por um truque para evitar que Lula sofra as consequências da própria irresponsabilidade.
Nem Lara Resende ignora que “o país gasta mal, aloca recursos de forma irracional, patrimonialista, como no caso das emendas parlamentares e das vantagens pecuniárias do judiciário, e demagógica, como no caso das vinculações de receitas, isenções e subsídios de toda ordem”.
O problema de seu artigo é classificar a resolução disso como algo secundário, desconsiderando a política econômica totalmente irresponsável de Lula, que se intensificou na campanha.
A questão é que fazer as coisas certas do ponto de vista econômico causará um desconforto popular com o qual Lula não está disposto a arcar. E com o qual seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), também não parecia querer lidar, a julgar pelo discurso do segundo turno.
Pouquíssimos governantes estiveram dispostos a lidar com esse desconforto na história do Brasil.
Desde o “milagre econômico” de Delfim Netto na ditadura militar até o Plano Real, que arrumou um país totalmente desajustado, mas também seguiu a agenda eleitoral para beneficiar Fernando Henrique Cardoso, a política econômica dos governos brasileiros nunca é desinteressada. Isso impede o avanço consistente do país desde basicamente sua origem.
No caso de Lula, contudo, é possível dizer, como ele tanto gosta, que nunca antes na história deste país um governante pensou tanto em si mesmo e conseguiu convencer tanta gente do contrário.
Leia mais: O Brasil é um grande golpe
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Comentários (1)
Marian
02.11.2026 12:15Irão tirar a autonomia do banco central? Inflação à vista.