Obrigar Bolsonaro a ler?
Quando nem mesmo os advogados de defesa defendem os interesses do próprio cliente, temos a certeza de que já não há mais leis no país
Jair Bolsonaro cumpriria sua pena por tentativa de golpe de Estado em um luxuoso condomínio no Jardim Botânico, em Brasília. A casa de dois andares e 400 m² era alugada e paga pelo Partido Liberal. Consta que, na região, os preços chegam a 90 mil por mês. Tinha área de lazer privativa, churrasqueira, deck, piscina, ar-condicionado.
A única função do ex-presidente era aproveitar a vida que milhões de brasileiros aproveitariam sem reclamar. Ele podia comer quantos pastéis quisesse, derrubar quilos de migalhas nas calças e fazer a mesma coisa que fazia quando presidente: rigorosamente nada. Bastava deixar o país quieto por uns meses e esperar que o Centrão fizesse o resto.
Mas Bolsonaro, como todo bandido, não gosta de leis. Inventou de romper a tornozeleira eletrônica – adereço sofisticado que combinava com chinelo, bermuda e camisa de times obscuros, como a seleção brasileira. Com uma solda na mão e uma ideia burra na cabeça, acionou a Polícia Federal, que acionou a úlcera de Alexandre de Moraes.
Bolsonaro agora está preso em uma sala de 27 m² da PF. Que, convenhamos, é do mesmo tamanho de flats caríssimos em Tóquio ou São Paulo. Arrumadinha, limpinha, fresquinha. Ele recebe visitas, vai e volta dos médicos, soluça à vontade. Quer assistência religiosa. Quer isolamento acústico por causa do Malafaia. Quer Smart Tv para ver a falta de comoção nacional. Quer mais alguma coisa, Bolsonaro? Eu levo.
Acontece que o “sistema” precisa acabar com Bolsonaro. Quando nem mesmo os advogados de defesa defendem os interesses do próprio cliente, temos a certeza de que já não há mais leis no país, nem presunção de inocência ou garantias constitucionais. Notícias dão conta de que os causídicos pediram ao ministro Alexandre de Moraes a inclusão do ex-presidente em um programa de remição de pena pela leitura.
Sim, é isso mesmo: se quiser que sua pena diminua um pouquinho, Bolsonaro será obrigado a ler A Revolução dos Bichos e 1984, de George Orwell, Diário de Fernando: nos Cárceres da Ditadura Militar Brasileira, de Frei Betto, e Canção para Ninar Menino Grande, de Conceição Evaristo, além de autores como Ailton Krenak, Lázaro Ramos, Machado de Assis e Carla Madeira.
Isso não se faz e, presumo, nem nos mais totalitários regimes comunistas houve coragem o bastante para impor a um condenado punições tão degradantes. Ler autores esquerdistas? Mas, sobretudo, ler?! E não bastaria ler: seria preciso, segundo o artigo 126 da Lei de Execução Penal, que o apenado não apenas lesse, mas apresentasse resenhas das leituras!
Definitivamente, estamos sob a ditadura do ministro Moraes e do professor Pasquale. Ditadura da toga e da lousa. Deixo de lado minhas diferenças episódicas e desimportantes com o ex-presidente, que é uma pessoa simples, de hábitos simples, de inteligência simples, e rogo para que não ceda! Clamo para que não se dobre! Rezo para que resista! Seja valente, capitão! Vinte e sete anos passam mais rápido que ler e resenhar os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (1)
Edson Barbosa
09.01.2026 12:03Olhando a questão pelos ângulos, histórico e antropológico, VAI SER UMA TORTURA, KKKKKKKK São capazes, depois, de acusar o XANDÃO de INSENSIBILIDADE JURÍDICA !!!!!