Orbán caiu, mas autocratas continuam em alta
Quando um cai, outro sempre aparece. Por alguma razão, o ser humano, mais que um pai, procura chinelo e castigo
Viktor Orbán, o protoditador no poder há mais de 15 anos na Hungria, finalmente caiu. Ou melhor: foi defenestrado pelo mesmo mecanismo que passou anos tentando domesticar: o voto. Em seu favor – e não que não seja mais que mera obrigação -, o fato de reconhecer a derrota sem tentativa de quartelada, de quebra-quebra, de ruptura institucional. Nem mesmo a costumeira narrativa conspiratória de seus pares (Donald Trump e Jair Bolsonaro, por exemplo) aconteceu.
Durante uma década e meia, Viktor Orbán virou mais uma referência global de um modelo político que parecia – e ainda parece – imune ao desgaste popular. Ele não fechou o regime como um ditador clássico. Fez algo mais eficiente: manteve a casca democrática e foi corroendo o conteúdo. Regras eleitorais desenhadas a dedo, imprensa pressionada, Judiciário domesticado. Tudo supostamente dentro do jogo democrático. Formalmente legal. Na prática, controlado. Ainda assim caiu.
A explicação não está na retórica triunfalista que costuma embalar análises apaixonadas. Orbán não perdeu porque se tornou “autoritário demais” aos olhos de um eleitorado equilibrado. Perdeu porque a conta sempre chega: inflação alta, baixo investimento, isolamento político. Discurso identitário até consegue vencer eleições, mas não sustentar o poder. Como é mesmo o ditado? “Você pode enganar muitos por muito tempo, mas não pode enganar todos o tempo todo.”
Pelo mundo
O adversário que o derrotou, Péter Magyar, não veio de fora para “salvar a democracia”. Veio de dentro. Ex-integrante do sistema, conhecia o funcionamento, as fragilidades e, sobretudo, os limites do modelo. Não prometeu refundação institucional nem redenção moral. Prometeu um mínimo de normalidade. A participação elevada da população no pleito – perto de 80% – não significa entusiasmo, mas certo esgotamento. O eleitor não votou para “mudar tudo”, mas para encerrar um ciclo.
Que a porção democrática do mundo não se impressione nem comemore. A Hungria não virou a página do autoritarismo e se tornou um caso de redenção democrática. Mostrou apenas que regimes deformados também podem ser derrotados quando a economia pesa, as alianças internas racham e surge alguém capaz de disputar o poder sem parecer um salto no escuro. Se Orbán caiu, seu método continua disponível. Ainda que um sopro de real democracia possa aparecer.
No Brasil, este ano, poderemos empoderar novamente uma turba assumidamente golpista e autoritária. A falta de alternativa democrática não é uma exclusividade tupiniquim. Donald Trump, Recep Erdogan, Andrzej Duda, Vladimir Putin, Xi Jinping… O mundo continua atolado em autocratas e autocracias – à esquerda e à direita. Quando um cai, como caiu Orbán, outro sempre aparece. Por alguma razão, o ser humano, mais que um pai, procura chinelo e castigo. Vá entender.
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Comentários (1)
Autocratas não são confiáveis!!!