Pix não é de Lula, nem de Bolsonaro
Talvez o sistema de pagamentos do Banco Central só tenha vingado porque foi gestado fora do meio político brasileiro, longe de oportunistas
O Pix foi responsável por uma das maiores crises do governo Lula. A perspectiva de que a Receita Federal aumentaria a fiscalização da ferramenta gerou, no início de 2025, o temor na população de que o petista pretendia colocar a mão ainda mais fundo no bolso do contribuinte.
O governo voltou atrás, alegando ter sido vítima de fake news, e só conseguiu reeditar a normativa meses depois, em agosto do ano passado, na esteira da Operação Carbono Oculto.
Agora, Lula tenta usar o Pix como trunfo eleitoral contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que, ao propagandear proximidade e influência sobre o governo de Donald Trump, se colocou na posição de inimigo da ferramenta do Banco Central que seu pai tentou capitalizar por anos.
Duelo de cartazes
Lula e Flávio protagonizam hoje um duelo de cartazes (foto) no qual se apresentam como defensores do Pix. O senador foi além do petista, ao dizer, além deu que “O Pix é do Brasil”, que a ferramenta também “é de Bolsonaro”, seu pai. Mas a verdade é que o Pix é o Estado brasileiro.
O sistema de pagamentos foi gestado no Banco Central durante o governo Michel Temer, mas sem ter relação com a gestão do sucessor de Dilma Rousseff. Quando foi lançado efetivamente, em 2020, durante o governo Bolsonaro, o então presidente nem sequer sabia do que se tratava.
O episódio ficou famoso porque Bolsonaro foi parabenizado em público por um apoiador pelo lançamento do Pix, em 5 de outubro daquele ano. O então presidente reagiu sem saber do que se tratava e, depois de ouvir do apoiador uma explicação, disse que não tinha tomado conhecimento sobre o assunto e que iria conversar com Roberto Campos Neto, então presidente do BC.
Ironicamente, o perfil do ex-presidente no X tinha postado mensagens exaltando o Pix duas vezes antes desse episódio, o que leva a crer que ele não fazia ideia do que estava sendo publicado.
“MAIS AGILIDADE, MENOS CUSTOS AO CIDADÃO: Pagamentos e transferências instantâneas serão realidade no Brasil. O Banco Central lançou o sistema de pagamentos PIX, que, a partir de novembro, vai permitir o envio e o recebimento de quantias de forma rápida, inclusive em smartphones”, dizia uma das mensagens publicadas no perfil de Bolsonaro.
Estado
Diante do sucesso do sistema, contudo, Bolsonaro se abraçou ao Pix, que passou a tratar como política de seu governo. O desconforto causado pela expansão do monitoramento do sistema durante o governo Lula reforçou esse discurso, que se enfraquece agora com as ameaças de tarifas feitas pelo governo Trump, ideologicamente mais próximo dos Bolsonaro, que mencionam o Pix.
O sistema elaborado pelo corpo técnico do BC, uma autarquia que se mantém independente apesar de intensas tentativas de interferência política, não pode ser vulgarizado dessa forma, contudo.
O Pix é uma das únicas iniciativas que deram certo no Brasil nas últimas décadas, e o fato de não ter um pai político só a fortalece. Aliás, talvez ele só tenha vingado porque não foi gestado no meio político brasileiro e se desenvolveu abaixo do radar de oportunistas que a teriam inviabilizado.
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