PSOL prova do próprio veneno
Partido da esquerda identitária passa por rebelião identitária liderada por Erika Hilton na disputa por recursos para a campanha deste ano
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP, foto) cobrou do próprio partido em público mais recursos para sua tentativa de reeleição. A disputa por espaço em um partido faz parte do jogo, e esse tipo de cobrança pública virou praxe na era das redes sociais, mas a argumentação da deputada trans é digna de nota, porque usa uma arma do partido identitário de esquerda contra ele mesmo.
“É o privilégio branco e cis sobrepondo tudo”, reclamou Hilton, ao destacar que Juliano Medeiros, presidente da federação PSOL-Rede, “em sua primeira candidatura, teria exatamente a mesma prioridade” que ela, e que a ex-deputada Manuela D’Ávila, “que acabou de chegar ao partido, tem previsão de receber mais que o dobro”.
Só que Manuela é candidata ao Senado, cujo teto de gastos é maior do que o de candidato a deputado — no Rio Grande do Sul, o limite deve ser em torno de 4,5 milhões de reais, enquanto o limite para candidatos a deputado em São Paulo deve ser próximo de 3 milhões de reais.
“É uma tentativa de asfixiar quem está na linha de frente em detrimento de um perfil de pré-candidaturas bem específico, de grupos que só pensam em si mesmos e estão, mais uma vez, arriscando a viabilidade do PSOL”, disse Hilton em um longo desabafo nas redes sociais.
Próprio veneno
A deputada trans, que conseguiu atenção ao reciclar a surrada proposta de fim da escala de trabalho 6×1, com cálculos errados e sem qualquer previsão de impacto, para que o desesperado governo Lula surfasse na irresponsabilidade em nome da reeleição, diz cobrar o cumprimento de acordos. Esse já seria um argumento legítimo e suficiente para reivindicar mais recursos.
Mas o identitarismo se impõe, porque é o grande trunfo de Hilton. Ao apelar para o discurso da mulher trans, negra e periférica, contudo, a deputada machuca a imagem do próprio partido.
Questionada por seguidores, Hilton, que chegou a recusar uma proposta de migrar para o PT, disse que o acordo era a “política de puxadores de votos”.
Na verdade, está claro que ela quer ser tratada como a maior estrela do partido.
A direção do PSOL rebateu, dizendo que a deputada trans conta com o “maior investimento entre todas as candidaturas proporcionais do partido, diante do limite de recursos disponíveis e da necessidade de financiamento das demais candidaturas”.
Barraco
Os desentendimentos internos do PSOL não são de hoje. A demissão de um assessor econômico no início de 2025 já tinha exposto as divisões internas.
Na época, Davi Deccache reclamou do “autoritarismo” de Guilherme Boulos, hoje ministro da Secretaria-Geral da Presidência de Lula, e o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) ameaçou deixar o partido. No pano de fundo, estava o debate sobre apoiar ou não o governo Lula.
Hoje, Deccache questiona o incômodo de Hilton.
“A Erika escreve um texto para acusar o PSOL de não fortalecer as candidaturas de mulheres e pessoas negras. Usa como um dos exemplos de perseguição o Giannazi. Esse deputado da foto. Pela foto, não parecer (sic) ser negro. Nem mulher. Será que ele entrou na lista de injustiças da Erika pq é mulher? Negro? Ou simplesmente pq é do mesmo grupo político que ela e Boulos? Será?”, escreveu Deccache perfil no X, com a foto do deputado estadual de São Paulo Carlos Giannazi.
“PS.: Erika, conta o valor que você vai receber pra gente ver um negócio… PS2: Conta tb quanto a ‘Nat Boulos’ vai ganhar, pra gente ver um negócio aqui rapidinho?”, segue a postagem de Deccache, referindo-se à mulher de Boulos, que também vai concorrer a uma vaga na Câmara.
“Ah, acho que você esqueceu tb de dizer que você é quem vai receber o maior valor dentre TODAS as candidaturas proporcionais do partido, né não? Por fim, acha mesmo 2,3 milhões de um teto de 3 milhões tão pouco assim? É sério mesmo? Coitada de você. Tão pouco dinheiro para uma campanha. Joga aí os valores. Bora jogar limpo. Coloque os dados da Nat Boulos Tb. Bora?”, finaliza o post.
O antropólogo Antonio Risério publicou neste ano o livro Adeus, Identitarismo: A hora da maré vazante (LVM editora), em que constata a armadilha contraditória dos movimentos identitários.
Eles se alimentam do ressentimento para tentar submeter todos em volta, principalmente os aliados, num processo insustentável, porque depende da condenação de seus próprios membros.
A tentativa de Hilton de colocar o PSOL aos seus pés é apenas mais um capítulo dessa história.
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Comentários (1)
Marcos
24.06.2026 19:27EU NÃO ENTENDO MAIS NADA. É "A DEPUTADA TRANS" OU É O DEPUTADO TRANS"? AFINAL A(O) DEPUTADA(O) É BIOLOGICAMENTE DO SEXO MASCULINO (HOMEM), ENTÃO DEVERIA SER "O DEPUTADO TRANS" OU NÃO? OUTRA COISA: SE ELA(E) SE ORGULHA DE SER "NEGRO", PORQUÊ ALISOU OS SEUS CABELOS ORIGINALMENTE CRESPOS? PORQUÊ PINTOU OS CABELOS ALISADOS (OU É PERUCA?) DE LOURO? AGINDO ASSIM TÁ PARECENDO O MICHAEL JACKSON.