Letícia Barros na Crusoé: Mulheres votam mal?
O cérebro delas processa a compaixão de maneira diferente do dos homens
Há um movimento crescente na política brasileira pelo fim do voto feminino.
Algumas falas de influenciadores políticos e até mesmo a defesa do “voto familiar” no Livro Amarelo do partido Missão, do MBL, partem desse fenômeno – e até motivaram uma representação da Bancada Feminina à Procuradoria-Geral da República (PGR).
Essa onda esquizofrênica surgiu como uma resposta às tendências observadas no voto feminino, embora acate uma solução absolutamente insensata e retrógrada.
Menos de um século após a conquista do voto feminino no Brasil – uma extensão basilar da liberdade política de todos os indivíduos –, a internet está sendo inundada por palpites contrários a ele.
Os questionamentos surgiram, principalmente, a partir de uma fala ousada do influenciador Paulo Figueiredo – conhecido por seu apoio à família Bolsonaro: ele disse que “as mulheres votam estatisticamente mal”.
O uso do termo “estatisticamente” por Figueiredo é impreciso. “Votar mal” não é uma categoria mensurável por estatística – é um julgamento de valor sobre o que constitui uma boa decisão política, e esse julgamento varia conforme a ideologia de quem o formula.
O que ele fez foi outra coisa: pegou dados reais sobre padrões de voto e os interpretou à luz de suas próprias convicções políticas, como qualquer pessoa à direita, ao centro ou à esquerda faria com os mesmos números.
O que os dados dizem sobre o voto feminino é que mulheres tendem a apoiar mais gastos em bem-estar social, saúde e auxílio a pobres do que homens.
Na prática, isso significa que mulheres votam, de forma consistente, por um modelo de Estado mais inchado.
Embora seja quase um crime no debate político atual alegar que mulheres e homens são biologicamente diferentes – e, por isso, agem e reagem de maneira diferente –, são precisamente essas diferenças que explicam esses dados.
Os pesquisadores Schlesinger e Heldman publicaram um estudo no Journal of Politics, em que apontam que a resposta emocional da mulher e do homem é diferente diante de problemas sociais, além da percepção sobre a justiça das instituições existentes.
Para além do campo político, os cientistas vêm estudando a possibilidade de o cérebro das mulheres processar a compaixão de maneira diferente dos homens.
E mais: um estudo da Universidade de Haifa observou que ocitocina afeta homens e mulheres de forma diferente em contextos sociais.
A verdade desconfortável é que interpretar dados e dizer que um grupo de pessoas vota mal faz parte da liberdade de expressão individual.
Um indivíduo pode…
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Comentários (1)
Maglu Oliveira
26.07.2026 12:06Foram as mulheres que botaram o Lula e o Bolsonaro no poder? Se foram, ele tem razão.