Pedreiro que fez própria defesa vai estudar direito
Desembargadores elogiaram argumentação de Edilson Takahara, trabalhador que atuou sem advogado em Manaus
Um mestre de obras de 49 anos passou a integrar o corpo discente de um curso de direito em Manaus.
Edilson Takahara ganhou destaque nacional ao apresentar sozinho sua sustentação oral perante desembargadores do Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região e, como desdobramento do episódio, foi contemplado com bolsa integral pela Famec, instituição de ensino superior da capital amazonense.
Convite após palestra
A oportunidade surgiu depois que Takahara relatou sua experiência a alunos do curso de direito da faculdade, na segunda-feira, 31. Segundo relato do próprio trabalhador, ao fim do encontro veio a proposta de bolsa integral, que ele hesitou em aceitar.
“Inicialmente, a minha ideia era não aceitar, porque eu não tinha pretensão de ingressar na carreira jurídica, com tanto advogado que já tem por aí”, afirmou.
A decisão mudou quando ele foi informado sobre outras possibilidades profissionais abertas pela formação jurídica. “Me falaram que você pode ser um delegado, um juiz, promotor. Resolvi aceitar”, disse.
Com as aulas previstas para o período noturno, o mestre de obras terá de reorganizar a rotina de trabalho. “Vou ter que trabalhar no máximo até as 14h, para pegar um ônibus, vir para casa, me preparar e ir para faculdade”, explicou.
Apesar da nova etapa, ele descarta abandonar o canteiro de obras e planeja aplicar conhecimentos acadêmicos a projetos que já tinha na área da construção, mas sem viabilidade financeira até então.
Caminho até o tribunal
A repercussão em torno de Takahara começou antes, na sustentação oral realizada em 17 de agosto, quando ele buscava o reconhecimento de vínculo empregatício com uma construtora. O trabalhador assumiu a própria defesa depois que um advogado contratado deixou passar prazos processuais, levando à extinção de uma ação anterior.
Ele recorreu ao instituto do jus postulandi, mecanismo que permite a um trabalhador atuar sozinho perante a Justiça do Trabalho, sem necessidade de representação por advogado.
Para acompanhar o processo, adquiriu computador e certificado digital, já que não tinha acesso prévio ao sistema eletrônico do tribunal quando a empresa apresentou recurso.
Uma primeira sentença já havia reconhecido o vínculo empregatício entre setembro de 2023 e abril de 2024, condenando a empresa ao pagamento de aviso prévio, 13º salário, férias e multa. No colegiado, tanto o recurso patronal quanto o do trabalhador foram rejeitados, e a decisão de primeira instância foi mantida.
Durante a sessão, Takahara relatou o desconforto de discursar diante dos magistrados: “Para mim, não é tão fácil, acho que todo mundo sabe disso. Porque tive que me esforçar para vencer essa barreira de criar coragem de vir até aqui, mesmo com todo mundo dizendo: ‘Olha, não adianta, você não vai saber falar’”.
O juiz relator do caso, Sandro Nahmias Melo, reconheceu a qualidade da argumentação apresentada: “A lógica de argumentos acabou sendo melhor do que muitas sustentações que essa turma tem ouvido de doutos patronos”.
Ao final da conversa com a reportagem, Takahara resumiu sua avaliação sobre o percurso até aqui: “Você tem que se dedicar. É possível, eu provei para todo mundo que é”.
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Comentários (1)
Vontade de vencer! Coisa que muitos brasileiros não têm noção desse valor. Principalmente no Nordeste, com uma maioria vivendo de esmolas do governo go