Morre em Portugal António Lobo Antunes, o “anti Saramago”
Governo decreta luto nacional e concede honraria póstuma ao escritor, que publicou 29 romances e foi um dos mais lidos em língua portuguesa
Morreu nesta quinta-feira, 5, o escritor português António Lobo Antunes, aos 83 anos. A informação foi confirmada pelo Grupo Leya, editora responsável por seu último romance, lançado em 2022. O governo português decretou luto nacional para o próximo dia 7, e aprovou a concessão póstuma do Grande-Colar da Ordem de Camões ao escritor.
A decisão foi tomada em reunião do Conselho de Ministros presidida pelo presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Em nota divulgada pelo gabinete do primeiro-ministro Luís Montenegro, o governo informou que a honraria foi proposta ao presidente, “que prontamente aceitou”. Rebelo de Sousa afirmou que depositará pessoalmente a comenda junto ao escritor.
A medicina, a guerra, a literatura
Nascido em 1º de setembro de 1942, na freguesia de Benfica, em Lisboa, Lobo Antunes formou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa em 1969, e se especializou em psiquiatria, área em que atuou no Hospital Miguel Bombarda. Entre 1971 e 1973, serviu como médico militar na guerra colonial portuguesa, em Angola – passagem que deixou marca visível em sua produção literária.
De volta a Portugal, continuou na psiquiatria até 1985, quando abandonou a profissão para se dedicar à escrita. Seu primeiro romance, Memória de Elefante, havia sido publicado em 1979 e obteve ampla repercussão. Ao longo da carreira, somou 29 romances e cinco volumes de crônicas escritas para a revista Visão.
Entre os títulos que integraram sua bibliografia estão Os Cus de Judas (1979), Conhecimento do Inferno (1980), Auto dos Danados (1985), Fado Alexandrino (1987), As Naus (1988) e Manual dos Inquisidores (1996). Em 1999, recebeu o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro Exortação aos Crocodilos, além de volumes de crônicas e cartas.
Rixa literária com José Saramago
Em Portugal, António Lobo Antunes e José Saramago, o escritor português que ganhou o Nobel em 1998, não se davam bem. Ou, mais precisamente, Lobo Antunes não se dava bem com o nobelizado. O prêmio vencido pelo rival não ajudou a amenizar as coisas.
“Estou farto de ouvir falar do Nobel, é apenas um prêmio literário em que as últimas pessoas que o têm ganho não me agradam. Os vencedores dos últimos anos não interessam. Estou tão ocupado a escrever”, disse certa vez.
“Saramago é uma merda… Se me quiserem comparar com alguém ponham lá o Antero [de Quental], o [Alexandre] Herculano, ponham assim um escritor. Porque não falam dos dois romances que o Almada [Negreiros] deixou?”.
Reconhecimento internacional
Em 2007, Lobo Antunes foi laureado com o Prêmio Camões, o maior reconhecimento literário da língua portuguesa. Desde 2016, era sócio-correspondente da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa. Seu nome era frequentemente mencionado entre os possíveis vencedores do Nobel de Literatura.
Em 2018, a Bibliothèque de la Pléiade (coleção francesa de prestígio que reúne obras de autores considerados patrimônio literário universal) anunciou a publicação de sua obra. Com isso, tornou-se o segundo escritor português a integrar o catálogo, depois de Fernando Pessoa, e um dos poucos autores a receber essa inclusão ainda em vida.
As reações ao falecimento vieram de diferentes instâncias do Estado português. O presidente Rebelo de Sousa classificou-se como “leitor, admirador e amigo há décadas” do escritor e afirmou que “poucos representaram tão bem a grandeza literária de um país”. O primeiro-ministro Montenegro escreveu que o legado do autor “continuará a inquietar-nos e a inspirar-nos”.
Lobo Antunes também foi homenageado em vida pela cidade de Nelas, onde a família mantinha uma casa desde a década de 1940: uma biblioteca pública local leva seu nome.
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Comentários (1)
Carlos Renato Cardoso da Costa
05.03.2026 16:33Lobo Antunes é maravilhoso, Saramago também. Aliás, a literatura portuguesa é fabulosa. Que descanse em paz