13 invasões por dia em SP. E se a próxima tentativa for no seu condomínio?
A segurança do condomínio não pode funcionar apenas para descobrir quem entrou. O desafio do síndico agora é perceber a tentativa antes que ela vire ocorrência
Quem é síndico conhece o roteiro. A segurança parece estar funcionando, as câmeras estão gravando, o controle de acesso está instalado, a portaria conhece os moradores e a sensação é de que o condomínio está protegido. Até o dia em que alguma coisa acontece.
Aí começa aquela corrida que ninguém gostaria de viver. Puxa imagem, procura horário, tenta descobrir por onde a pessoa entrou, chama a empresa de segurança, conversa com a portaria e começa a aparecer uma sequência de pequenos erros que, separados, pareciam inofensivos. Juntos, abriram a porta.
Por isso chama atenção o levantamento divulgado pela Record apontando 13 invasões a condomínios por dia em São Paulo.
Se essa média permanecer durante 365 dias, estamos falando de 4.745 ocorrências em um ano. Considerando como referência cerca de 28 mil condomínios na capital, esse volume equivale matematicamente a quase 17% desse universo. Isso não quer dizer que 17% dos condomínios serão invadidos, porque um mesmo prédio pode sofrer mais de uma ocorrência, mas ajuda a colocar o tamanho do problema na mesa.
E talvez seja justamente aqui que o síndico precise mudar uma pergunta.
Em vez de “meu condomínio tem segurança?”, vale perguntar: “alguém já tentou descobrir onde a nossa segurança falha?”
Porque você pode ter 80 câmeras e continuar vulnerável. Pode ter reconhecimento facial e uma garagem mal protegida. Pode gastar uma fortuna com equipamentos e ter um prestador entrando sem a conferência correta. Pode ter uma imagem maravilhosa em 4K registrando exatamente o momento em que o criminoso entrou.
Nesse último caso, você não tem prevenção. Tem uma excelente gravação do problema.
É aí que entra uma figura que ainda é pouco utilizada em muitos condomínios: o consultor de segurança independente.
Não estou falando simplesmente da empresa que chega para vender câmera, controle de acesso ou portaria. Estou falando de alguém que olha o condomínio pensando em risco. Que anda pelo prédio, observa entradas e saídas, garagem, muros, iluminação, pontos cegos, rotina dos funcionários, entregas, visitantes e prestadores e tenta encontrar as brechas antes que alguém mal-intencionado faça isso.
Para o síndico, isso muda bastante a gestão. Em vez de esperar uma ocorrência para descobrir que determinado portão era vulnerável, você descobre antes. Em vez de comprar mais vinte câmeras porque alguém sugeriu, entende primeiro onde elas realmente fazem falta.
E hoje temos uma ferramenta que pode tornar essa prevenção ainda mais interessante: câmeras trabalhando com inteligência artificial.
Pense na quantidade de imagens produzidas pelo seu condomínio durante 24 horas. Nenhum porteiro consegue acompanhar dezenas de telas ao mesmo tempo com atenção absoluta. A tecnologia pode ajudar justamente nesse ponto, identificando situações previamente configuradas como suspeitas e chamando a atenção da equipe para aquilo que merece ser verificado.
Uma pessoa parada durante muito tempo em um acesso, movimentação em uma área restrita, alguém atravessando determinado perímetro ou uma presença fora do padrão não precisam necessariamente ficar perdidos no meio de centenas de horas de gravação.
Mas também não adianta comprar “câmera com IA” e achar que o problema acabou.
Primeiro alguém precisa entender o risco do seu condomínio. Depois a tecnologia precisa ser configurada para ajudar a vigiar esse risco. E, quando surgir um alerta, sua equipe precisa saber exatamente o que fazer.
Esse conjunto é muito mais importante do que simplesmente aumentar a quantidade de equipamentos.
Se eu estivesse hoje administrando um condomínio, colocaria esse assunto na próxima reunião do conselho. Não começaria pedindo orçamento de câmera. Começaria contratando um diagnóstico de segurança e fazendo uma pergunta bastante simples ao especialista: “Se você quisesse entrar aqui sem autorização, por onde tentaria?”
Talvez a resposta seja desconfortável. Melhor ouvi-la de um consultor numa terça-feira à tarde do que descobrir pela câmera às três da manhã.
Porque o melhor sistema de segurança não é aquele que consegue mostrar perfeitamente como o criminoso entrou.
É aquele que trabalha para que ele não consiga entrar.
Nota: a comparação de quase 17% resulta de 13 ocorrências × 365 dias = 4.745 ocorrências, divididas por um universo de referência de 28 mil condomínios. Não representa percentual comprovado de condomínios únicos invadidos.
Por Rafael Bernardes, especialista em gestão condominial e fundador do Sindicolab
Leia também: Vou te contar por que você paga condomínio
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Comentários (1)
Marian
09.09.2026 17:46É só para a cervejinha.