A engenharia da corrupção em condomínios
Como a conta pool virou máquina de desvio
A maior corrupção do país não passa pelo Congresso. Ela passa pelo boleto do condomínio.
Enquanto moradores discutem barulho, vaga de garagem e pet em assembleia, uma engrenagem silenciosa opera nos bastidores da gestão condominial. Seu nome técnico é “conta pool”. Seu efeito prático é simples: dinheiro some e ninguém sabe exatamente quando, como ou para onde.
Antes de avançar, é preciso fazer uma distinção essencial e honesta. Nem toda administradora que utiliza conta pool pratica irregularidades. Existem empresas sérias, com controles rígidos, governança interna, auditorias recorrentes e compromisso real com os condomínios que administram. Essas empresas sobrevivem apesar do modelo, não por causa dele. O problema não é a existência de boas intenções. O problema é que o modelo permite que más intenções prosperem sem freio.
E é justamente aí que mora o risco estrutural.
O modelo é conhecido: os recursos de vários condomínios são concentrados numa única conta bancária em nome da administradora. Oficialmente, isso “otimiza a gestão”. Na prática, elimina a rastreabilidade direta, dificulta a fiscalização independente e cria um ambiente perfeito para fraudes continuadas quando não há ética, quando não há controle, quando não há limite.
Não se trata de hipótese. Trata-se de padrão observado em investigações e auditorias recentes.
Nos últimos anos, casos de desvios milionários vieram à tona em diferentes capitais brasileiras seguindo o mesmo roteiro operacional. Empresas consolidadas, com anos às vezes décadas de atuação, utilizaram a conta pool como um caixa único informal, misturando recursos de dezenas de condomínios e operando um sistema de compensação interna invisível aos moradores.
Em um desses episódios, dezenas de condomínios descobriram que seus recursos estavam sendo usados para cobrir déficits de outros prédios. O dinheiro entrava regularmente, mas era imediatamente centralizado. Quando a inadimplência crescia em um condomínio, o caixa de outro era usado para tapar o buraco. O efeito foi piramidal: funcionou enquanto houve entrada constante de recursos. Quando o fluxo diminuiu, o rombo apareceu na forma mais básica e cruel possível: contas de água e luz atrasadas, multas acumuladas e fundos de reserva zerados sem qualquer autorização assemblear.
Em outro caso, a fraude só foi percebida quando a energia elétrica de um edifício foi cortada. As taxas condominiais eram cobradas normalmente, mas nunca chegavam às concessionárias. Parte do dinheiro era desviada por meio de empresas de fachada, simulando contratos de serviços. No papel, tudo fechava. Na prática, nada existia.
Há também situações em que o nível de sofisticação chega à falsificação documental. Auditorias independentes identificaram extratos bancários adulterados apresentados como prestação de contas. O saldo “batia” no relatório interno, mas o dinheiro real já havia sido transferido para contas pessoais. Gastos privados pagos com recursos do condomínio apareceram apenas quando a perícia cruzou dados bancários reais.
O ponto comum entre esses casos não é apenas a fraude. É o ambiente que a torna possível.
A conta pool impede o acesso direto ao extrato bancário do condomínio. O que chega ao morador é um “extrato de sistema”, produzido pela própria administradora. Editável. Ajustável. Conveniente. A maquiagem de saldos se torna rotina: transferências internas entre subcontas criam a ilusão de equilíbrio no dia da prestação de contas, mesmo quando o dinheiro físico já não existe mais.
Outro mecanismo recorrente é a retenção silenciosa de rendimentos financeiros. Com milhões de reais misturados de dezenas ou centenas de condomínios, os recursos são aplicados, mas os juros não são repassados proporcionalmente. O ganho fica invisível e privado.
Importante reforçar: administradoras sérias existem. Elas operam com controles paralelos, segregação interna rigorosa, auditorias frequentes e, muitas vezes, defendem a migração para contas individualizadas. O problema é que o morador não tem como diferenciar compromisso de discurso quando o modelo, por si só, bloqueia a transparência.
Os sinais de alerta quase sempre aparecem antes do colapso. Resistência a auditorias externas. Orçamentos sem cotação tripla. Lançamentos genéricos. Uso recorrente do fundo de reserva. Acordos informais com inadimplentes. Mas, sem acesso direto ao dinheiro, o conselho fiscal vira figurante e a assembleia discute efeitos, não causas.
A corrupção condominial não depende apenas de má-fé. Ela depende de arquitetura. Enquanto o dinheiro não estiver em conta própria do condomínio, no seu CNPJ, com acesso direto e irrestrito, qualquer promessa de transparência é frágil.
A conta pool não é sinônimo automático de fraude.
Mas é, indiscutivelmente, o terreno mais fértil para que ela floresça.
E enquanto esse modelo continuar sendo tratado como “normal de mercado”, os maiores desvios continuarão acontecendo sem algemas, sem manchetes nacionais e sem responsáveis claros. O prejuízo, como sempre, ficará com quem paga em dia e confia demais.
Por Rafael Bernardes, especialista em gestão condominial e fundador do Sindicolab
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