Como o fim da jornada 6×1 vai afetar a portaria do seu prédio?
Entidades alertam que a redução da jornada de trabalho poderá exigir novas contratações, aumentar as despesas dos moradores e transformar o funcionamento das portarias
O debate sobre o fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador exerce suas atividades durante seis dias e descansa um, ganhou um novo capítulo no mercado condominial. Em 7 de outubro de 2026, duas entidades representativas do setor divulgaram um comunicado conjunto alertando para os possíveis impactos da mudança sobre os condomínios brasileiros.
O documento foi elaborado pela ABADI (Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis), entidade sediada no Rio de Janeiro que representa empresas de administração imobiliária e condominial, e pela AABIC (Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo), que representa administradoras de imóveis e condomínios no mercado paulista.
São associações que acompanham questões trabalhistas, econômicas e regulatórias relacionadas às empresas responsáveis pela administração de milhares de edifícios. Portanto, o posicionamento merece atenção dos síndicos, embora represente a perspectiva institucional dessas entidades, e não necessariamente a opinião de todos os profissionais e moradores.
A preocupação central é relativamente simples: enquanto a proposta de redução da jornada pretende proporcionar mais descanso e qualidade de vida aos trabalhadores, os condomínios continuarão precisando funcionar durante os sete dias da semana.
Por que o fim da escala 6×1 preocupa os condomínios?
Imagine um condomínio que possui porteiros, funcionários da limpeza e profissionais responsáveis pela manutenção. Essas equipes trabalham em escalas organizadas para garantir o funcionamento do edifício, inclusive aos finais de semana e feriados.
Se a jornada de trabalho for reduzida, os funcionários passarão menos tempo à disposição do condomínio, mas a necessidade de atendimento continuará praticamente a mesma.
Uma portaria que funciona 24 horas por dia precisa manter sua cobertura independentemente da quantidade de dias de descanso dos profissionais. Isso significa que, dependendo das regras aprovadas e da escala utilizada, o condomínio poderá precisar contratar mais pessoas para preencher os horários que ficarão descobertos.
Segundo as estimativas apresentadas pela ABADI e pela AABIC, muitos condomínios poderiam precisar de um ou dois funcionários adicionais para reorganizar suas equipes.
O problema é que essas contratações não significariam necessariamente mais segurança, limpeza ou qualidade no atendimento. Em muitos casos, serviriam apenas para manter os serviços que os moradores já recebem atualmente.
Quanto isso pode aumentar a taxa condominial?
As entidades destacam que os gastos com mão de obra, incluindo funcionários próprios e terceirizados, representam aproximadamente 55% a 70% das despesas mensais dos condomínios.
Para entender o tamanho desse impacto, podemos imaginar um condomínio com orçamento mensal de R$ 100 mil, dos quais R$ 60 mil são destinados ao pagamento de funcionários e contratos de serviços.
Simulação matemática, não uma previsão das entidades. Altere o percentual para observar o efeito no orçamento, mantendo as demais despesas constantes.
A principal diferença entre uma empresa convencional e um condomínio está na maneira como esses aumentos são absorvidos. Uma empresa pode tentar compensar os custos por meio de preços, margens ou receitas adicionais. Já o condomínio funciona essencialmente pelo rateio das despesas entre os proprietários.
Assim, se o custo de funcionamento aumentar e não houver compensação em outras despesas, a diferença precisará ser suportada pelos condôminos.
O efeito inesperado: menos funcionários e mais tecnologia?
Um dos pontos mais interessantes do comunicado é a possibilidade de a mudança trabalhista acelerar uma transformação que já acontece nos condomínios: a substituição de determinadas atividades presenciais por soluções tecnológicas.
As entidades avaliam que, diante do aumento das despesas com pessoal, síndicos e administradoras poderão considerar alternativas como portarias remotas, sistemas de reconhecimento facial, controles automatizados de acesso, armários inteligentes para encomendas e modelos híbridos de atendimento.
Isso não significa que todos os condomínios abandonarão suas equipes presenciais, mas que a comparação econômica entre manter funcionários e investir em tecnologia poderá ganhar ainda mais importância.
Existe aqui uma contradição que merece ser discutida. Uma proposta criada para melhorar as condições de trabalho pode, dependendo da maneira como for implementada, estimular empregadores a reduzir a dependência de mão de obra humana.
No caso dos condomínios, essa decisão também envolve aspectos que não podem ser avaliados apenas pelo preço, como segurança, perfil dos moradores, acessibilidade, estrutura do edifício e capacidade de atendimento em situações de emergência.
O que os síndicos precisam fazer agora?
A discussão ainda depende da definição das regras que efetivamente serão aprovadas. Por isso, não é possível afirmar que todos os condomínios terão de contratar funcionários ou que determinado percentual de reajuste será inevitável.
Entretanto, síndicos e administradoras já podem começar a estudar suas escalas atuais, identificar quais postos exigem cobertura permanente e calcular quanto custaria reorganizar as equipes em diferentes cenários de jornada.
Também será importante conversar com as empresas terceirizadas, pois alterações na legislação poderão repercutir nos preços dos contratos de portaria, limpeza, manutenção e outros serviços.
Essa análise deve considerar não apenas o custo de uma eventual contratação adicional, mas também as possibilidades de reorganização das atividades, os limites legais e convencionais aplicáveis e os investimentos necessários para adotar novas tecnologias.
O desafio é melhorar a vida de quem trabalha sem inviabilizar quem paga
O posicionamento da ABADI e da AABIC traz uma preocupação econômica relevante, mas o debate não pode ignorar a realidade dos trabalhadores que sustentam a operação dos condomínios. Porteiros, auxiliares de limpeza, zeladores e demais profissionais também precisam de descanso, convivência familiar e condições adequadas de trabalho.
Por outro lado, a conta dessa transformação será dividida entre moradores que também enfrentam suas próprias limitações financeiras.
A discussão, portanto, precisa encontrar soluções que conciliem direitos trabalhistas, continuidade dos serviços e capacidade de pagamento dos condomínios.
Para o SíndicoLab, existe ainda uma questão que merece atenção: o fim da escala 6×1 poderá representar muito mais do que uma mudança nas relações de trabalho. Dependendo das regras aprovadas, poderá acelerar uma reorganização dos modelos de gestão condominial, na qual a tecnologia deixará de ser apenas uma opção de modernização para se tornar uma alternativa econômica cada vez mais considerada pelos síndicos.
O desafio será garantir que essa transformação produza melhores condições de trabalho e serviços eficientes, sem transformar a busca por economia em perda de qualidade, segurança ou atendimento aos moradores.
Por Rafael Bernardes, especialista em gestão condominial e fundador do Sindicolab
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