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O efeito colateral que a balança não mostra na era dos injetáveis

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5 minutos de leitura 08.07.2026 16:04 comentários
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O efeito colateral que a balança não mostra na era dos injetáveis

Médico explica por que a perda de peso não representa, sozinha, a recuperação completa da saúde e destaca a importância do acompanhamento metabólico

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Dados do Atlas Mundial da Obesidade 2025, da Federação Mundial da Obesidade, mostram que 68% dos brasileiros vivem com excesso de peso e 31% apresentam obesidade. Com a popularização de medicamentos utilizados no tratamento da doença, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, muitos pacientes passaram a associar a queda dos números na balança à recuperação completa da saúde. Para médicos, porém, o emagrecimento deve ser apenas uma das etapas do cuidado.

Segundo o médico, professor e pesquisador Alexandre Duarte, referência em fisiologia metabólica e hormonal, os medicamentos representam um avanço importante, mas não substituem uma avaliação ampla do organismo. “Temos medicamentos capazes de produzir perdas de peso que antes eram observadas apenas em procedimentos mais invasivos. Isso é extremamente relevante. O problema começa quando a sociedade passa a acreditar que emagrecimento e saúde são exatamente a mesma coisa. Não são”, afirma.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade entre adultos mais que dobrou desde 1990. A condição está associada ao maior risco de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, esteatose hepática e alguns tipos de câncer. Por isso, o tratamento precisa considerar fatores como composição corporal, massa muscular, sono, alimentação, exames laboratoriais e histórico clínico.

“O excesso de peso costuma ser uma manifestação de um problema fisiológico mais amplo. A obesidade pode estar ligada à resistência à insulina, alterações hormonais, inflamação crônica de baixo grau, distúrbios do sono, perda de massa muscular e queda na capacidade de produção de energia pelas células”, explica Alexandre Duarte.

O que a balança não mostra

Estudos publicados no The New England Journal of Medicine, como o “Tirzepatide as Compared with Semaglutide for the Treatment of Obesity“, sobre semaglutida e tirzepatida, demonstraram reduções expressivas de peso em pacientes com obesidade. Os resultados ajudaram a colocar esses medicamentos entre os tratamentos mais eficazes já desenvolvidos para a doença. Ainda assim, a avaliação da saúde não deve se limitar ao peso corporal.

Segundo o especialista, dois pacientes com o mesmo peso podem apresentar realidades metabólicas muito diferentes. Um pode ter boa sensibilidade à insulina, massa muscular preservada e exames dentro da normalidade. Outro, mesmo após emagrecer, pode continuar com fadiga, alterações hormonais, sono ruim, pouca disposição e marcadores inflamatórios elevados.

“Existe uma diferença entre reduzir gordura corporal e restaurar a capacidade do organismo de produzir energia, responder adequadamente aos hormônios e manter estabilidade metabólica. Muitas pessoas atingem a meta de peso, mas continuam cansadas, com dificuldade de concentração ou exames alterados. Isso mostra que parte do processo ainda precisa ser tratada”, diz Alexandre Duarte.

Uma médica ou profissional de saúde usando jaleco branco e óculos mede a circunferência da cintura de uma paciente com uma fita métrica amarela. A paciente, uma mulher com cabelos amarrados e vestindo uma camiseta verde-clara, está de perfil em um consultório iluminado.
O tratamento da obesidade vai além da perda de peso e exige acompanhamento contínuo para evitar danos ao organismo (Imagem: New Africa | Shutterstock)

Sinais que merecem atenção

A perda rápida de peso, quando não é acompanhada de orientação adequada, pode trazer prejuízos. Entre os sinais de alerta, estão cansaço persistente, queda de força, perda de massa muscular, insônia, irritabilidade, compulsão alimentar, piora da disposição e dificuldade de manter energia ao longo do dia.

As diretrizes da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) reforçam que a obesidade é uma doença crônica e exige acompanhamento contínuo. Isso significa que o cuidado não termina, necessariamente, quando o paciente alcança determinado peso.

“Boa parte dos pacientes chega ao consultório procurando uma estratégia para emagrecer. Poucos entendem que o verdadeiro objetivo deveria ser recuperar a função metabólica. Quando o foco permanece apenas no emagrecimento, aumenta o risco de repetir o ciclo de perder peso, recuperar peso e seguir acumulando desgaste fisiológico”, afirma o médico.

Como acompanhar o tratamento

Para reduzir riscos, o acompanhamento deve ser individualizado. Além do peso, é importante observar exames laboratoriais, percentual de gordura, preservação de massa muscular, qualidade do sono, rotina alimentar, prática de atividade física e presença de doenças associadas.

“Metabolismo não é uma conta simples entre calorias consumidas e calorias gastas. Estamos falando de hormônios, sono, massa muscular, inflamação, alimentação, atividade física e capacidade de adaptação do organismo. Ignorar essas variáveis é reduzir um sistema complexo a uma única métrica”, ressalta Alexandre Duarte.

Para o especialista, os medicamentos inauguraram uma nova fase no tratamento da obesidade, mas também exigem uma mudança na forma de medir resultados. A pergunta central deixa de ser apenas quantos quilos o paciente perdeu e passa a incluir como está sua saúde depois do emagrecimento.

“Emagrecer pode ser o começo da jornada. O verdadeiro desafio é reconstruir a saúde metabólica de forma duradoura, para que o paciente tenha energia, autonomia e qualidade de vida nos próximos anos”, conclui.

Por Carolina Lara

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