Como a ausência produz a derrota vexatória
Enquanto Lula delega funções críticas a auxiliares que não conseguem entregar os resultados necessários, o Congresso se movimenta intensamente
Por Alexandra Vieira*
A política é, por excelência, a arte da presença, do diálogo e do movimento. Quando um governante abdica dessas premissas, o vácuo gerado é rapidamente preenchido por outras forças.
O recente cenário político brasileiro, marcado por uma derrota acachapante e histórica do governo no Senado Federal, evidencia uma constatação objetiva: falta o maior gigante da política brasileira voltar a atuar. Falta Luiz Inácio Lula da Silva na articulação política.
Historicamente, o Brasil não presenciava a rejeição de uma indicação presidencial para o Supremo Tribunal Federal (STF) há um século. No entanto, o que se observa atualmente é um Executivo enfraquecido, não por falta de poder institucional, mas por uma dupla carência: falta de articulação política direta e falhas na comunicação.
Ao delegar a seus auxiliares, Lula deixou de exercer o protagonismo que sempre caracterizou sua trajetória.
Vácuo no Executivo e a movimentação no Congresso
A máxima de que “na política não há espaço vazio” tem se provado verdadeira no atual governo.
Enquanto o presidente delega funções críticas a auxiliares que, em momentos decisivos, não conseguem entregar os resultados necessários, o Congresso Nacional, repleto de senadores e deputados de oposição, movimenta-se intensamente.
Não basta contar com líderes experientes, como o senador Jaques Wagner (PT-BA), para afinar em diálogos matinais em meio a exercícios físicos midiáticos…
Em batalhas cruciais, o auxiliar jamais substitui o protagonista.
A derrota vexatória na indicação de Messias para o Supremo demonstrou que as garantias dadas pelos articuladores próximos ao presidente não se sustentaram na prática. O protagonista precisa descer ao ringue, fazer-se presente e dialogar diretamente.
A politização do STF
Além de um Congresso fortalecido e ávido por espaço, o cenário atual traz um elemento ainda mais complexo: a atuação política do Supremo Tribunal Federal.
A mais alta corte do país, outrora simbolizada pela estátua da Justiça com os olhos vendados, representando a isenção, hoje adota uma postura de ativismo político explícito.
Durante a votação no Senado, observou-se a movimentação de ministros da própria Suprema Corte contra a indicação do presidente.
Ministros como Alexandre de Moraes (indicado por Michel Temer) e Flávio Dino (indicado pelo próprio Lula) articularam-se abertamente para barrar o nome escolhido pelo Executivo.
Não se trata de mera coincidência, mas dos nomes mais políticos já indicados à Suprema Corte.
Ambos tiveram vida pública e política intensa antes de se tornarem ministros, trazendo consigo uma bagagem de articulações, alianças e rivalidades que não se dissolvem com a toga.
Essa característica os diferencia de magistrados que chegam à Corte com trajetórias mais técnicas, e explica, em parte, sua capacidade e disposição em atuar politicamente no interior da instituição.
Os bastidores dessa movimentação revelam motivações preocupantes. A indicação iria para um colegiado ligado ao ministro André Mendonça, relator do caso Master, incluindo delação premiada de Vorcaro que poderiam envolver figuras ligadas à própria Corte como Alexandre de Moraes.
Reportagens apontam que houve intensa articulação de bastidores de ministro, incluindo jantar com a presidência do Senado às vésperas da votação histórica.
O embate institucional e a necessidade de retorno
O quadro atual revela um desequilíbrio perigoso para a governabilidade: um Executivo enfraquecido pela inércia de seu líder máximo, enfrentando um Congresso e um Supremo Tribunal Federal que atuam com intensa sede política.
Há relatos, inclusive, de barganhas envolvendo ações em curso no STF.
A crise está instalada. Resta saber se o presidente Lula continuará a se curvar à movimentação dos ministros da Suprema Corte e à fraqueza de seu grupo político no Congresso Nacional, ou reassumirá as rédeas da articulação política.
Para isso, é necessário que Lula volte a ser o que sempre o caracterizou: o presidente que abre as portas de seu gabinete, que dialoga diretamente, que de surpresa caminha pelos corredores do Congresso com presença e autoridade política.
Voltar a ser o Lula que escolhe com quem conversa, que convida diretamente seus interlocutores para diálogos substantivos.
Aquele Lula que reúne pessoas ao seu redor em encontros políticos genuínos, que compartilha uísques e conversas com aqueles que realmente fazem política, mas também com rostos novos, com visões diferentes.
Um Lula que se abre para conhecer novas pessoas, novas perspectivas, saindo daquela redoma em que tem vivido nos últimos anos cercado sempre pelos mesmos nomes, pelos mesmos conselheiros, gerando uma limitação perigosa à sua visão política.
Lula precisa voltar a ser o protagonista acessível e o articulador hábil que a política brasileira um dia conheceu. Para superar esse embate institucional, Lula precisa voltar ao ringue com presença, diálogo e movimento. Demonstrar, institucionalmente, que cada Poder tem o seu limite e o seu papel.
*Alexandra Vieira é estrategista em comunicação estratégica e gerenciamento de crise
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