Rafael Fonteles na Fazenda: motivo para otimismo?
Não está claro até que ponto o governador do Piauí se compromete de fato com o controle das contas públicas
Todos os setores da economia aguardam uma sinalização de Lula sobre o ajuste fiscal em seu quarto mandato. Há expectativa de que o presidente escolha rapidamente um ministro da Fazenda, para reduzir as incertezas que provocaram turbulências nos mercados depois da eleição.
Entre os cotados estão o atual ministro Dario Durigan, o senador e ex-ministro Camilo Santana e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Mas o nome que mais tem circulado é o de Rafael Fonteles, governador do Piauí, reeleito no primeiro turno com 71% dos votos.
Por que isso importa
É fato que Lula tem dado ouvidos a Fonteles. No domingo, o governador estava logo atrás do presidente durante o discurso de celebração da vitória eleitoral.
Não está claro, porém, quanto respaldo teria dentro do próprio PT. O partido tem um longo histórico de resistência a políticas econômicas defendidas até mesmo por ministros escolhidos e apoiados por Lula, quando elas contrariam suas convicções.
Tampouco é verdade que o mercado financeiro já tenha abraçado Fonteles. Ele não é um completo desconhecido: atraiu investimentos expressivos para o Piauí e já frequentou ambientes da elite econômica paulista, como a Casa das Garças.
Mas ainda falta clareza sobre o personagem, seu pensamento econômico e, principalmente, o significado de suas realizações no Piauí.
Panorama: o laboratório piauiense
Fonteles tem uma trajetória administrativa incomum. Matemático, mestre aos 21 anos, foi secretário da Fazenda do Piauí entre 2015 e 2022, antes de assumir o governo estadual em 2023.
Sua gestão ampliou fortemente os investimentos públicos. Segundo levantamento da Folha, foram 13,1 bilhões de reais entre 2023 e 2026, ante 7,1 bilhões de reais nos quatro anos anteriores. O Piauí esteve entre os estados que mais investiram proporcionalmente à receita.
Os resultados aparecem no Ranking de Competitividade dos Estados de 2026, do Centro de Liderança Pública (CLP). O Piauí avançou do 21º para o 19º lugar entre as 27 unidades da Federação, sua melhor posição histórica. Lidera os indicadores de taxa de investimento público e oferta de serviços públicos digitais.
Mas a colocação geral mostra quanto ainda falta avançar. Apesar da melhora, o estado permanece na parte inferior da classificação nacional. O ranking também expõe contrastes: na edição de 2025, o Piauí era primeiro em taxa de investimento, mas último em resultado primário.
As contas apresentam outros indicadores favoráveis. A receita corrente líquida passou de R$ 13,5 bilhões em 2022 para 18,7 bilhões de reais em 2025. O comprometimento com pessoal, pelo critério oficial, permanece relativamente baixo. O Tesouro atribui ao estado nota B+ em capacidade de pagamento.
Há, porém, outra face dessa experiência. Entre 2023 e 2025, as operações de crédito corresponderam a cerca de 90% dos investimentos, segundo o Valor. O déficit primário acumulado na gestão chegou a 3,7 bilhões de reais, ante 147 milhões de reais na administração anterior.
A dívida cresceu e especialistas alertam que o modelo se aproxima de seu limite. Também chama atenção o estoque de precatórios vencidos e não pagos, que chegou a 3,2 bilhões de reais em 2025.
Fonteles reagiu aprovando, em 2025, uma regra fiscal para dez anos, em vigor desde 2026. Ela limita a expansão dos gastos, estabelece metas e prevê restrições em caso de descumprimento. É uma iniciativa relevante, mas ainda sem resultados suficientes para avaliar sua eficácia.
Na economia real, o quadro é misto. O Banco do Nordeste projeta crescimento de 4,1% para o PIB estadual em 2026, o dobro da média brasileira. Entretanto, a geração líquida de empregos formais caiu 18% até agosto, e a abertura de empresas recuou 43,4% até setembro.
Lupa: pensamento econômico
Em 2025, Fonteles publicou Diretrizes de Longo Prazo de Desenvolvimento do Estado do Piauí. O documento organiza sua visão econômica em três pilares: um superchoque educacional e tecnológico, estabilidade institucional e fiscal duradoura e abertura econômica com participação ativa do Estado.
A defesa da responsabilidade fiscal é explícita: “Sem equilíbrio fiscal, as tensões socioeconômicas se elevam e o processo de desenvolvimento torna-se totalmente comprometido”.
Fonteles acrescenta: “É a estabilidade fiscal que garante capacidade de investimento, elemento fundamental para as políticas públicas, para melhorar a infraestrutura e para atrair investimentos privados”.
Não se trata, porém, de uma proposta liberal de redução do Estado. O terceiro pilar, denominado “Abertura Econômica (com participação ativa do Estado)”, pressupõe atuação governamental na transformação produtiva, inclusive por meio de investimentos em empreendimentos estratégicos.
O primeiro pilar, por sua vez, aposta na educação e na tecnologia para elevar a produtividade. A proposta combina formação de capital humano, inovação e aproximação entre universidades e empresas.
A concepção é desenvolvimentista, mas procura conciliar protagonismo estatal, abertura econômica e responsabilidade fiscal. Sua principal dificuldade está justamente nessa conciliação: o livreto estabelece princípios, mas não demonstra como preservar o equilíbrio das contas diante de uma agenda tão abrangente de investimentos e intervenções públicas.
Radar empresarial: perguntas ainda sem resposta
O histórico de Fonteles e seu longo artigo oferecem pistas importantes, mas não permitem antecipar a política econômica que ele adotaria na Fazenda.
A primeira pergunta é sobre a disposição para conter despesas. No Piauí, Fonteles aproveitou uma situação fiscal relativamente favorável para ampliar investimentos por meio de empréstimos. No governo federal, encontraria uma dívida elevada e a necessidade de recuperar a confiança na sustentabilidade das contas públicas.
A segunda é sobre os instrumentos. Ele defende a estabilidade fiscal, mas não apresenta um programa detalhado de contenção de despesas, revisão de benefícios, reforma de gastos obrigatórios ou trajetória de resultados primários.
A terceira envolve a relação entre Estado e setor privado. Fonteles aposta na participação governamental em setores estratégicos e não esclarece suficientemente como selecionar investimentos, avaliar retornos e limitar os riscos impostos aos contribuintes.
Há, finalmente, uma questão política decisiva: qual autonomia teria para contrariar interesses de grupos do PT e do próprio governo?
Resumo da ópera
Fonteles reúne credenciais técnicas, experiência administrativa e uma visão econômica que reconhece a importância do equilíbrio fiscal, mas sem abrir mão do ativismo estatal.
Sua gestão no Piauí mostra que sabe utilizar espaço fiscal para ampliar investimentos. Ainda não demonstra, porém, que saiba reconstruir esse espaço quando ele se esgota.
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Comentários (2)
Otimismo zero! Se fosse um bom gestor o seu Estado não estaria dependendo eternamente da União!
Annie
28.10.2026 16:44Ajuste fiscal vai ser impostos no lombo dos Brasileiros.