Selic cai, juros de longo prazo sobem: e agora?
Enquanto problema fiscal não for endereçado, condições de financiamento da economia continuarão apertadas
O Banco Central reduziu nesta quarta-feira a taxa Selic de 14,25% para 14% ao ano, dando sequência ao ciclo de flexibilização monetária iniciado no começo de 2026. Quase simultaneamente, outros dois indicadores apontaram na direção oposta. A Taxa de Longo Prazo (TLP), utilizada nos financiamentos do BNDES, ultrapassou pela primeira vez a marca de 8% ao ano, encarecendo o crédito para empreendedores. Além disso, os balanços trimestrais de Itaú Unibanco, Bradesco e Santander mostraram uma mudança de postura dos maiores bancos privados, que anunciaram maior cautela na concessão de empréstimos, aumento das provisões para inadimplência e preferência por operações com garantias.
Tomados em conjunto, os três acontecimentos sugerem que, embora o Banco Central esteja reduzindo os juros básicos, as condições efetivas de financiamento da economia continuam apertadas. Enquanto a Selic influencia principalmente o custo do dinheiro no curto prazo, a TLP e a política de crédito dos bancos refletem a percepção de risco sobre a economia brasileira e a trajetória das contas públicas. É justamente essa diferença que ajuda a explicar por que empresas — especialmente pequenas e médias — ainda encontram um ambiente de crédito restritivo apesar do início do ciclo de queda da taxa básica.
Por que isso importa
Quem tende a sentir primeiro os efeitos desse aperto são as pequenas e médias empresas. As grandes companhias têm acesso ao mercado de capitais, podendo emitir debêntures ou captar recursos diretamente junto a investidores. Já as PMEs permanecem fortemente dependentes do crédito bancário tradicional ou das linhas do BNDES.
Quando bancos privados endurecem critérios de concessão e o crédito de longo prazo fica mais caro, o resultado costuma ser maior dificuldade para financiar expansão e modernização de negócios e o adiamento de investimentos.
Os próprios bancos indicam que a prioridade deixou de ser expandir a carteira de crédito para centrar-se na preservação da qualidade dos ativos. A preferência agora recai sobre operações com garantias — como crédito consignado, financiamento imobiliário e linhas apoiadas por fundos garantidores —, enquanto o crédito pessoal e outras modalidades de maior risco perdem espaço.
Panorama
A origem comum desse movimento está na deterioração das expectativas fiscais. Atualmente, a dívida pública bruta brasileira ronda os 82% do PIB. Segundo estimativas do FMI, ela deve atingir 96,5% ao final do ano e alcançar 100% do PIB em 2027. São valores considerados arriscados para uma economia emergente. Por isso, quem dispõe de capital exige juros elevados para financiar nossa dívida pública de longo prazo.
Lupa
A alta da TLP ajuda a entender por que o problema fiscal afeta diretamente a economia real.
Ao contrário da Selic, definida pelo Banco Central para controlar a inflação de curto prazo, a TLP é calculada a partir dos juros reais pagos pelos títulos públicos de longo prazo (NTN-Bs de cinco anos). Quando investidores passam a exigir remuneração maior para comprar esses papéis — seja por preocupação fiscal, seja por maior percepção de risco —, o custo dos financiamentos do BNDES sobe automaticamente.
Isso explica por que a taxa do banco de fomento atingiu um recorde histórico mesmo em um momento de cortes sucessivos da Selic.
Na prática, a política fiscal passou a influenciar mais diretamente o financiamento do investimento privado. Empresas que antes contavam com crédito subsidiado do BNDES enfrentam hoje um custo muito mais próximo das condições de mercado.
Radar de propostas políticas
A deterioração do ambiente de crédito ajuda a explicar por que a questão fiscal se consolidou como um dos principais temas da campanha presidencial.
Apesar das diferenças entre os candidatos, há um diagnóstico relativamente convergente de que estabilizar a dívida pública será condição necessária para reduzir juros estruturalmente e recuperar o investimento privado.
As divergências aparecem na estratégia para atingir esse objetivo. As candidaturas de oposição enfatizam, em graus diferentes, contenção de despesas, reformas administrativas e revisão do tamanho do Estado.
Já a campanha do presidente Lula sustenta que o ajuste deve ocorrer de forma gradual, preservando a capacidade de investimento público e combinando controle fiscal com crescimento econômico.
Nenhuma das principais campanhas, no entanto, oferece uma receita detalhada de como pretende atacar o problema logo de largada — certamente porque, para a maioria dos economistas, medidas impopulares como a desvinculação de gastos públicos do valor do salário mínimo se tornaram incontornáveis.
Resumo da ópera
Embora o Banco Central tenha iniciado o ciclo de queda da Selic, o custo do dinheiro para quem produz continua condicionado principalmente às expectativas sobre a situação fiscal do país. Para o próximo governo, convencer o mercado de que a dívida pública seguirá uma trajetória sustentável pode ser tão importante quanto reduzir a taxa básica de juros.
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Comentários (1)
Clayton de Souza Pontes
07.08.2026 17:59O mercado sabe que esse governo é gastador, daí o juro sobe a despeito da queda forçada da selic